Edição 98
É cilada!
Os almanaques eram publicações anuais que traziam de tudo, das fases da lua até remédio para unha encravada. Isto aqui é uma releitura em pílulas semanais, dizem. Nesta edição emboscada: na boleia com o Agente Secreto, na Ucrânia com soldados-escravos, na casa das abelhas com os besouros, na extrema-direita com os jovens, nas águas lendárias com os fenícios, na perfídia com os bots, e na mineirice traiçoeira com Otto Lara Resende.
No multigalardoado O Agente Secreto (Kleber Mendonça Filho, 2025), como sói ocorrer em filmes de cinéfilos, abundam referências audiovisuais. Inicia com imagens da cultura popular brasileira da época. Em seguida, vê-se um defunto na beira da estrada tratado com a mesma sem-cerimônia daquele que abre O Terceiro Tiro (Alfred Hitchcock, 1955). As split screens — a tela dividida ao meio para o público ver simultaneamente duas ações ou duas pontas da mesma ação — remetem à Hollywood da década de 1960 e ao norte-americano Brian De Palma. O par de pistoleiros de diferentes gerações (Roney Villela e Gabriel Leone) ecoa o de Os Matadores (Beto Brant, 1997), e assim por diante.
Absorvidas pela trama, as homenagens se multiplicam a ponto de não se saber mais se foram conscientes — caso do galpão de açúcar que traz à mente o Salão de Areia de Stalker (Andrei Tarkóvski, 1979)? — ou uma brincadeira da memória do diretor. Pois que na sequência climática do filme, um dos personagens é perseguido até uma certa Barbearia do Bino, nome que já sinaliza seu destino.
A série Carga Pesada, criação de um time de respeito (Gianfrancesco Guarnieri, Ferreira Gullar, Walter George Dürst, e Carlos Queiroz Telles) sob a liderança de Dias Gomes, mostrava as aventuras de dois caminhoneiros pelas estradas Brasil afora — mesmo que filmadas nos limites do estado do Rio de Janeiro. Foi produzida originalmente entre 1979 e 1981, mas a Rede Globo a reviveu, com sucesso maior, na primeira década do século XXI, protagonizada pelos mesmos atores da primeira versão: Antonio Fagundes (Pedro) e Stênio Garcia (Bino). Quando tropeçavam nalguma situação de risco, Pedro se apressava em berrar no ouvido do companheiro de boleia o que se tornou um bordão do programa:
Viraria meme reconhecido mesmo pelas gerações que não viram o seriado. Portanto, quando o personagem de O Agente Secreto entra na Barbearia do Bino, o espectador brasileiro sabe o que se anuncia do fundo do tutano dos ossos da sua memória.
Em tempo: o barbeiro Bino, estendendo o jornal na foto que abre esta edição, é sósia escarrado, cuspido e fotocopiado de figura que muito honra a cidade do Recife, onde se passa o filme: Reginaldo Rossi, aquele que afogou suas mágoas aqui. Nesta mesa de bar.
Já os fenícios, ao escapar de uma cilada, podem ter criado outra para futuras gerações — em nome dos negócios. Para o historiador alemão Max Georg Schmidt, esses astutos comerciantes teriam encontrado meio rápido e barato de afastar a concorrência das rotas de mercadorias entre a Ásia e a bacia do Mediterrâneo: criando boatos de monstros terríveis e sanguinários nas distantes terras do Oriente. Nasciam os causos de sereias e ciclopes, capazes de encarecer qualquer empreitada comercial nas terras lendárias. Os europeus tomaram gosto por essas histórias, seja nas odisseias homéricas seja na visão medieval do que existiria para o lado de lá dos oceanos — criaturas diferentes e despidas de qualquer humanidade, pedindo para serem conquistadas ou exterminadas.
Separados no berço: o desequilibrado e perigoso agente do FBI Milton Dammers (Jeffrey Coombs) no filme Os Espíritos (Peter Jackson, 1996); e Gregory Bovino, o diminuto comandante geral da ICE (sigla em inglês), a polícia militarizada de imigração dos EUA, que, somente em janeiro, matou duas pessoas a queima-roupa (uma mãe pela frente e um enfermeiro pelas costas), prendeu um garoto de cinco anos ao descer do transporte escolar, sequestrou garota de 2 anos contra ordem judicial, jogou gás lacrimogêneo num carro cheio de mais crianças, e aterrorizou diversos cidadãos norte-americanos com a pele mais escura. O assassinato do enfermeiro foi a pipoquinha que fez o governo afastar Bovino para não despencar mais nas pesquisas.


Jovens da Polônia, da Itália, e da Hungria não são exatamente os mesmos nem mesmo dentro de seus países: diferentes classes, diferentes visões de religião, diferentes ídolos. Ainda assim, além dos hormônios, milhares deles — especialmente rapazes — compartilham da busca por uma comunidade para chamar de sua. E essa comunidade não raro acaba sendo um grupo de extrema-direita, onde encontram o que consideram ser uma resposta ao individualismo exacerbado da modernidade. Acabam caindo numa armadilha: onde veem “irmandade”, há a rejeição radical de tudo o que não seja espelho e, finalmente, o isolamento.
Nesta arapuca, também há lugar para os brasileiros. Em pesquisa comparativa com jovens brasileiros e alemães na mesma situação radicalizada, a psicóloga Beatriz Besen percebeu que o conservadorismo exagerado “aparece menos como adesão ideológica rígida e mais como processo de busca por ordem, pertencimento e reconhecimento”. Encontram “um modo de organizar experiências difusas e de ocupar espaços políticos onde podem ser vistos, ouvidos e valorizados, especialmente em ambientes digitais”, daqueles em que nem o coelho de Alice se aventuraria.
A oferta é sempre a mesma: viagens para trabalhar na Rússia com contratos generosos. O resultado também costuma ser o mesmo: os respondentes vão parar no meio do campo de batalha na Ucrânia, combatendo na marra pela Rússia, na linha de frente, com poucos equipamentos e até como homens-bombas. Eles vêm de diversas partes do continente africano e do Sudeste Asiático, sempre de áreas pobres e com poucas perspectivas de emprego, atraídos por uma promessa de vida melhor na Europa. Acabam mortos por drones ou, caso se rebelem, torturados pelos russos. Usados como excedente de carne dispensável, prolongam a invasão da Ucrânia, que já dura mais que a campanha soviética na Segunda Guerra Mundial.
Em 1971, a revista alemã Der Spiegel dava uma dimensão humana da arapuca que era o conflito no Vietnã para os EUA: somente no ano anterior, haviam ocorrido 89.088 deserções, cem mil objeções por motivo de consciência, e dezenas de milhares de soldados viciados em drogas.
O próximo tipo de manipulação de campanha eleitoral nas redes sociais, a partir do segundo quarto do século XXI, tende a ser mais furtivo graças aos avanços da tecnologia de inteligência artificial. Deepfakes — arquivos audiovisuais que imitam pessoas reais à perfeição — e criatórios de bots já assombraram as eleições de 2024 na Indonésia, em Taiwan, na Índia, e nos EUA. Os próximos enxames virtuais serão mais sofisticados: multidões de bots com memórias, identidades e passado individuais, criados para fabricar consenso rapidamente para um lado ou outro e influenciar pessoas de carne e osso. A melhor forma de responder a esse ataque é também pela formação de ajuntamentos: grupos e instituições que se coordenem para detectar esses bandos em ação.
Bots (programas criados para executar tarefas repetitivas) também podem avacalhar com os estudos das ciências sociais. Desde a primeira década deste século, pesquisas feitas por formulários na internet fizeram a alegria de pesquisadores de Humanas, da economia à psicologia. Pois os bons tempos acabaram! A nova geração de bots de IA já pode, como visto acima, simular com um pé nas costas um humano — ou melhor, milhares — de carne e osso online, inclusive respondendo com êxito a perguntas criadas especialmente para detectá-los. Adeus, economia de fundo de pesquisa.
Ah, as maravilhas da inteligência artificial: executar tarefas repetitivas, catalogar dados em segundos, encontrar respostas num piscar de olhos, ler seus e-mails e arquivos para treinar a inteligência artificial de grandes corporações! Se o último item nesta lista não lhe agrada e você possui conta Gmail/Google, siga os passos abaixo:
No canto direito no topo da página inicial do Gmail, clique no ícone (⚙️) de Configurações.
Acione a opção “Ver todas as configurações”.
Na aba Geral, role a página até chegar a Recursos Inteligentes e clique para desativá-los, proibindo assim que “o Gmail, o Chat e o Meet usem seu conteúdo e suas atividades nesses produtos para oferecer recursos inteligentes e personalizar sua experiência” e se alimentem desses mesmos conteúdos em troca.
Há um preço, naturalmente: nada de respostas automáticas ou escrita inteligente completando o resto de suas mensagens mais triviais. Cabe-lhe decidir o que vale mais, se a privacidade ou a praticidade.
Se acha que é tudo muito preocupante, conforte-se sabendo que as abelhas passam por coisas piores.
Adultos, os besouros meloídeos podem secretar uma substância altamente corrosiva, a cantaridina, para afugentar os predadores. Já suas larvas, escalam até o alto dos talos das plantas e das folhas do capim para formar uma massa vistosa que emite aroma floral capaz de confundir e atrair abelhas.

É o primeiro exemplo documentado de animais imitando o cheiro de flores. Se dão sorte de se agarrar numa abelha fêmea, as larvas já seguem direto para a colmeia, onde uma refeição fresquinha de ovos de abelhas as espera.
Moral da história: os perigos mais cheirosos vêm nos menores frascos.

A grande contribuição de Minas Gerais para a cultura universal é a tocaia. A tocaia é uma homenagem à vítima. Ela morre sem aviso prévio, delicadamente e, se possível, desconhecendo o autor da cilada.
Otto Lara Resende, em reflexão sobre a política em geral e Minas Gerais em particular que ele reaproveitaria em perfil do governador mineiro Magalhães Pinto.








