Edição 109
Aparências, nada mais

Sustentaram as nossas vidas! Os almanaques eram publicações anuais que traziam de tudo, das fases da lua até remédio para unha encravada. Isto aqui é uma versão em porções vendidas como semanais. Nesta edição bem maquiada: a estética de Michelle Bolsonaro, a traição de James Cook, os símbolos do crime organizado, o simbolismo da Catedral e da Copa, o resgate dos antúrios, o escudo lunfardo contra elogios, e a malandragem do supermercado e dos besouros.
Os males do telefone sem fio.
No século XVIII, em contraste com contemporâneos seus, o explorador profissional James Cook tinha consciência da precariedade da comunicação entre europeus e os locais das ilhas em que iam aportando pela primeira vez. Sabia que as únicas palavras das quais poderia ter certeza nas conversas bilíngues se referiam a coisas concretas, “sob a observação dos sentidos”. O resto eram chutes e conjeturas.
Cook desconfiava também de suas qualidades literárias para registrar as viagens no papel. Assim que recorreu a um profissional da escrita fantasma, John Hawkesworth, cujo sobrenome pode ser traduzido sem medo como “ambulante de valor”. Deu-lhe seus diários e notas com a missão de tornar tudo aquilo legível ao público britânico. O problema, para Cook, era ser Hawkesworth exatamente um profissional da escrita. Lambuzou o livro de episódios inventados, clichês (já naquela época) sobre a inocência do bom selvagem, e até cenas mais picantes, tudo ao gosto do público leitor — em suma, sucesso de vendas. Cook ficou furibundo.
Hawkesworth não estava sozinho nessa invenção do Novo Mundo segundo as fantasias europeias.
O francês Louis Antoine de Bougainville, outro explorador da época, já criticava conterrâneos “cuja prática constante é difamar os outros, que nunca foram além da capital, nunca examinam qualquer coisa; e que, sob a influência de todo tipo de erro, jamais julgam algo sem parcialidade; e ainda fingem decidir com absoluta certeza professoral.” E estamos falando de Bougainville, chegado a comparar o Taiti e seus habitantes a Jardins do Éden e figuras da mitologia grega nos seus relatos de próprio punho.
Esses tomos vendiam feito água, reforçando conceitos e preconceitos numa época que a antropologia (ainda sem esse nome) era praticada do sofá.
Foi com base em relatos pasteurizados como o de Hawkesworth que filósofos do Iluminismo e outros pensadores se dividiram entre duas teorias: a da humanidade como uma única raça; e a de várias humanidades separadas em etnias hierarquizadas, uma bagaceira sem base científica que assola a Terra plana e a redonda até nossos dias.
Pierre Duval, geógrafo do rei Luís XIV, foi mais longe no século XVII. Elaborou uma taxonomia para lá de suspeita dos povos de pele escura sem tirar os pés de Paris, tendo como fonte relatos de comerciantes e senhores de escravizados, entre outros observadores para lá de interessados.
Já dizia Machado (como assim que Machado?) no romance A Mão e a Luva, “as aparências de sacrifício valem mais, muita vez, do que o próprio sacrifício”. Da mesma forma, o sacrossanto valor das marcas de luxo, isto é, a aparência. Não importa se sua bolsa Hermès Himalaya Birkin é verdadeira, apenas que ela pareça perfeitamente verdadeira.

Já aquelas embalagens coloridas simpáticas de frutas que você vê no supermercado e na feira podem ser um eficiente — para o vendedor — truque ótico. Trata-se da ilusão confete, em que o contexto influencia a percepção das cores. O vermelho de um saco-rede, por exemplo, pode dar às laranjas ali dentro um ar mais maduro e suculento do que elas na verdade possuem. A sua visão periférica, neste caso, é seu maior inimigo.
Separados na estética: o goebbeliano Roberto Alvim, breve Secretário Especial de Cultura do governo Jair Bolsonaro (novembro de 2019 a janeiro de 2020), e Michelle Bolsonaro, ex-primeira-dama de Jair e ex-líder do Partido Liberal (PL) Mulher porém ainda líder evangélica feminina, em vídeos que, apesar dos sinais aparentemente opostos, evocam a linguagem totalitária da década de 1930: tela larga, mesa idem, destaque para cores escuras e sombras, muita linha reta, rosto grave, e simbolismo por todos os objetos, um fetiche ultraconservador.
Aparências e tudo o mais. As organizações criminosas brasileiras também levam seus símbolos muito a sério. Entre 2024 e 2025, sair desavisado vestindo a marca de uma rival podia ser fatal até para inocentes. Um turista paulista em Jericoacoara (CE) foi morto sem saber por quê em duplo encontro com o azar: usava camiseta com estampa yin yang (PCC) ao ir às compras em boca de drogas rival (CV). Fazer o número 2 com os dedos pode sinalizar associação com o CV na Bahia, no Rio de Janeiro, e em outras partes do Brasil; o número 3, remetendo ao logotipo de três listras da marca esportiva Adidas, identifica o PCC e os aliados Bonde do Maluco (BDM) e Terceiro Comando Puro (TCP). A matança por simbologia errada coincidiu com período de conflito territorial entre as facções, cujos novos chefes estavam ansiosos por mostrar serviço. Essa polarização assassina parece ter amainado neste 2026.
“São seus olhos.”
“Nada, foi baratinho.”
Até um “sai pra lá”: todas expressões que os brasileiros usariam para afastar um olho gordo e um mau olhado.
O argentino tem a sua também: anulo mufa. Surgida no dialeto lunfardo buenairense do século XIX, resiste até hoje como proteção contra elogios muitos e suspeitos demais. Até o ultrajovem Franco Colapinto, piloto da Fórmula 1, recorreu à frase para desejar bons resultados à seleção argentina na Copa do Mundo de 2026.
Esse prédio com 40 graus de inclinação não se beneficiou de filtro de aplicativo nem foi alucinação da inteligência artificial generativa. A Capela Bufa e Assopra — referência aos dissabores dos Três Porquinhos com o Lobo Mau — foi construída assim mesmo na ilha de San Giacomo in Paludo, com a melhor matemática, para a Bienal de Arte de Veneza de 2026. A obra do norte-americano Hugh Hayden é um hino à precariedade dos tempos, mas pode entrar; ela não cai.

E pra não dizer que só falamos em espinhos, as flores do seu antúrio andam esmaecidas, numa palidez de bancário gamer que não vê praia desde a criação do mundo? Parecem almas mortas? Talvez sua plantinha precise de mais claridade. Exponha-a à luz solar, mas nada em excesso. Sol, especialmente em horário de pico, pode queimá-la! Para bem posicioná-la na sua casa, lembre-se do ambiente tropical em que essa espécie viceja, entre árvores caudalosas, umidade e luz difusa.
Não, não há relação histórica entre o desempenho da seleção brasileira masculina em Copas do Mundo e resultados de eleições presidenciais, a não ser que se leiam os votos sob uma luz tão difusa que não coraria um mísero antúrio.
Incríveis mas verdadeiros são os subterfúgios do besouro Austrospirachtha carrijoi, simpático representante da família dos estafilinídeos avistado primeiro em 2023. Quando ele nasceu, a evolução lhe deu duas notícias, uma ruim e uma boa. A ruim era que ele teria uma boca minúscula, limitando suas opções de alimento. A boa era que, na hora de batalhar comida, bastaria que estufasse a barriga. Nela localiza-se uma réplica perfeita de um cupim.
Ao visitar colônias de cupins, que são cegos e se reconhecem entre outras coisas pelo tato, o besouro recebe a comida já digerida na boca falsa do boneco — a verdadeira está logo abaixo, pescando tudo. Se alguém tirou a sorte grande nesta vida, foi esse cidadão.
Como sói acontecer com inúmeras espécies absolutamente originais, essa também veio da Austrália.
Descasque o esmalte falso de Hollywood e você encontrará por baixo o esmalte verdadeiro.
Muito provavelmente o roteirista e ator de rádio norte-americano Ed Gardner, no que pode ser entendido como elogio ou veneno em pele de cordeiro.
Quer você esteja escrevendo sobre estados policiais violentos, colapso ambiental, ou um pesadelo tecnocrático, deve se lembrar de que provavelmente está escrevendo sobre um mundo em que alguém já vive. Só chamamos isso de distopia quando acontece conosco.
O escritor Mark Russell, explicando a gênese da sua graphic novel distópica Not All Robots (Nem Todos os Robôs, 2022), vencedora do Prêmio Eisner de Quadrinhos.
Porque o poeta é irmão do escondido das gentes / Descobre além da aparência, é antes de tudo / livre, e porisso conhece.
Hilda Hilst, em “Poemas aos homens do nosso tempo” (1974), defendendo a existência dos poetas.
Vacas e poetas se parecem: dão tudo e tudo perdem.
Hilst, na crônica “Solidão? Não. Sozinhez”, publicada no Correio Popular de Campinas (12/03/1995), exausta da existência dos poetas.
É 100% certo que não sou um gênio. Mas é 100% certo que não sou tonto.
O multipremiado técnico da seleção brasileira Carlo Ancelotti, tentando anular mufa. Deu chabu.
















