Edição 101.6
Os quindim de IA IA: cola e cuspe

Cumé, cumé, cumé! Os almanaques eram publicações anuais que traziam de tudo, das fases da lua até remédio para unha encravada. Isto aqui é uma versão seriada desses artefatos d’antanho. Nesta Parte Seis de Sete de uma edição especial conforme o prompt: as fitas adesivas segurando as IAs de pé.
Como pode ser verificado na montagem que inicia todas as partes desta edição, muitos dos logotipos das IAs contemporâneas se assemelham a orifícios. Uma possível explicação é a tendência humana demasiado humana à cópia porque em time que ganha não se mexe. Uma outra é que todos fugiram da janelinha quadrada do sistema operacional Windows (Microsoft) como o diabo da cruz. E caíram no buraco.
Separados no orifício: “minha ilustração de um ânus” no romance Café da Manhã dos Campeões, de Kurt Vonnegut, e o logotipo do modelo de linguagem Claude (Anthropic).


Startups são empresas ainda em fase inicial, buscando investidores que estão em busca de empresas com potencial de sucesso mesmo que seu produto nunca saia da prancheta — a junção da fome com a vontade de especular. Muitas empresas de tecnologia de hoje nasceram como startups. Muitas grandes empresas de tecnologia de hoje ainda se comportam como startups.
Um conceito muito ligado a startups é o de produto minimamente viável (MVP na sigla original, o que a torna um trocadilho vaidoso com outra sigla MVP, most valuable player ou o jogador mais precioso).
O objetivo principal de uma startup é desenvolver um produto singular até um estágio em que dê para, ao menos, apresentá-lo a potenciais consumidores e investidores, e conseguir fundos para seguir adiante — o mínimo mesmo para se manter em pé. Não ia ser diferente com empresas de tecnologia de inteligência artificial.
Em 2023, a Google alardeia aos ventos e às massas de ar o lançamento de seu LLM, o Gemini, correndo atrás do prejuízo depois da estreia do GPT (OpenAI) em 2022. No vídeo demonstrativo, o modelo era impressionante: o usuário mostrava coisas, o Gemini identificava e comentava em tempo real; o usuário dava comandos de voz, o Gemini respondia corretamente. Mais tarde, a empresa confessou o truque: as interações tinham sido editadas para dar a impressão de ato contínuo, e as respostas eram reações a prompts escritos ou fotos.
Em 2025, a Meta, outra não-startup, apresenta num evento a segunda geração de seu produto popular entre voyeurs e tarados, os óculos com IA, feitos em parceria com a Ray-Ban. A IA ouviu a mesma pergunta múltiplas vezes e permaneceu quieta. Culparam o Wi-Fi. Em seguida, novo produto da linha, uma pulseira com IA, falhou em identificar os comandos de mão do usuário para que atendesse uma chamada telefônica. Wi-Fi de novo.
Pausa para o robô russo Aldol, desmaiando assim que entrou no palco para sua estreia ao som do tema do filme Rocky, Um Lutador.
Você há de lembrar que o salto de desempenho nos modelos de linguagem se deve ao extremo isolamento do mundo. Já robôs precisam operar no mundo. Mesmo um trabalho repetitivo requer dezenas de microdecisões relativas a esse mundo.
Para enroscar um parafuso, é necessário mirar e acertar o buraco, aplicar a força adequada, entender quando o parafuso está torto, saber quando parar. Para servir uma bebida, é preciso abrir garrafas, acertar o local e o volume do copo, segurá-lo aplicando a força adequada, calcular onde pousá-lo e com que velocidade.
O que você faz automaticamente pode ser tarefa hercúlea para uma máquina. Até que surja uma descoberta revolucionária na IA para robótica, todas essas subtarefas precisam ser calculadas, programadas e treinadas uma a uma.
Da Edição 45:
Os robotáxis — ou veículos autônomos — na China são um sucesso, mas eles só funcionam porque a lei do país exige que haja, pelo menos, um observador/controlador remoto humano para cada três desses carros na rua.
Teleoperadores: uma categoria de emprego crescendo rapidamente na China. São as pessoas que treinam robôs executando movimentos remotamente. Re-pe-ti-da-men-te. Para que o robô replique cada ação com êxito, os treinadores devem se movimentar lenta e mecanicamente, sem desvios, ou seja, o humano tem que agir como um robô.
Lerê-lerê. Um teleoperador de robôs chinês ganha até um salário razoável em comparação com treinadores de modelos de linguagem ao redor do mundo. Seja nas Filipinas, no Quênia, ou na Colômbia, jovens desempregados topando tudo são contratados por terceirizados para passar horas catalogando e descrevendo imagens, que alimentarão LLMs do outro lado do mundo, em troca de centavos. As companhias chinesas de IA adicionam mais camadas de atravessadores para evitar o nível de escrutínio enfrentado pelas norte-americanas. O modelo colonial das duas potências, porém, é o mesmo.
E tome-lhe água.
Os modelos de linguagem das gigantes de tecnologia se alimentam de uma carga pantagruélica de informação. Para o armazenamento, processamento e transmissão dessa informação, carecem de data centers. Mais e maiores data centers precisam estar em locais de clima mais estável ao longo do ano, como desertos, e sujeitos a refrigeração constante devido à quantidade de energia que consomem. Finalmente, a água para refrigerá-los deve ser pura para não danificar as máquinas.
Não se sabe definitivamente quanta água a IA consome uma vez que as companhias escondem como podem esses dados. Assim, todos os cálculos de terceiros costumam ser estimativas a partir de números dos próprios data centers — e mesmo assim, sem ter como separar o que é IA de outros usos. Além disso, o volume de água no resfriamento depende da eficiência da tecnologia usada — e assim vai.
A agropecuária ainda é a indústria campeã de consumo de água na maior parte do mundo (já que também não se sabe ao certo o impacto da indústria da guerra). No entanto, vive-se numa época de mudança climática e enorme estresse hídrico. A indústria da IA é mais um fator de pressão num mundo em que já não há água para todos.
O impacto se agiganta no nível local. Em consequência, cidades e comunidades com grandes problemas de água se rebelam na disputa com data centers barulhentos e bebedores.
É escondendo e fazendo malabarismos que se vende o peixe! Com o teste certo, todo resultado se encontra. Alguns estudos mostraram que os chatbots têm maior capacidade de empatia que os humanos. O diabo está nos parâmetros usados para medir essas coisas. Quando se mede empatia por meio de respostas a perguntas de estranhos numa plataforma online, por exemplo, humanos estão claramente em desvantagem.
Em 1878, o já célebre Thomas Alva Edison tinha inventado uma sua lâmpada incandescente. Era economicamente inviável: funcionava por alguns minutos e kaput. Edison, que já tinha feito alarido sobre a nova criação, convocou os amigos da imprensa mesmo assim, apresentou a novidade e enxotou todo mundo do salão antes que a luz apagasse. Ganhou tempo e, no início do ano seguinte, tinha uma lâmpada elétrica que se mantinha acesa por horas. Aperfeiçou-a mais, e no fim daquele 1879, patenteou e só então iniciou a comercialização do produto, agora plenamente viável.
Moral da história:
Edison está morto.
Eu costumava dizer que a nossa indústria só ficava atrás da de exploração espacial em taxa de fracassos. Aí, a indústria de exploração espacial começou a funcionar.
Daphne Koller, executiva da Insitro, startup que usa IA para descobrir novas drogas, sendo honesta sobre as limitações da sua área.
As pessoas não podem ficar ligeiramente grávidas, mas programas de computador podem ser ligeiramente funcionais.
A jornalista de dados Meredith Broussard, explicando uma característica básica da indústria de tecnologia.
Impor limites aos poderes das empresas que desenvolvem a IA é a forma de proteção crucial contra usos perigosos dessa tecnologia.
A cientista especialista em ética e IA Timnit Gebru, que foi demitida da Google ao alertar a empresa sobre os riscos e defeitos de seu projeto de LLM.
