Edição 100
Em tequinicólor!
De volta, de câmera na mão, em cores e em ação! Os almanaques eram publicações anuais que traziam de tudo, das fases da lua até remédio para unha encravada. Isto aqui é uma releitura em espetáculos semanais. Nesta edição absolutamente glamourosa: os Oscars e a Academia, os filmes e seus impactos, os astros e os barracos, com participações especiais de Cannes, Veneza, Glauber Rocha, Louis Malle, e mais estrelas que no firmamento.
Filmes históricos costumam faltar com a verdade a torto e a direito; é a regra até porque um filme de ficção histórica tem compromisso com a ficção. Mesmo assim, algo do contexto histórico acaba sendo honrado, o que pode fazer a diferença na vida real.
Há alguns anos, o roteirista Chris Terrio participava de um evento social cheio de figurões, um membro de cúpula da gestão Barack Obama entre eles. Durante toda a noite, o cidadão tratara Terrio de modo estritamente formal. A certa altura, encontram-se os dois sozinhos, o homem pega no braço de Terrio e sussurra-lhe um muito-obrigado por ter escrito Argo (Ben Affleck, 2012), uma versão romanceada do resgate dos reféns norte-americanos e canadenses em Teerã após a queda do xá Mohammad Reza Pahlavi em 1979.
Terrio, que ganhara um Oscar pela adaptação dessa história (a partir de dois livros) para o cinema, estampou a perplexidade no rosto. O homem esclareceu-lhe: o prólogo de Argo recapitulava os acontecimentos que desaguaram na crise de 1979, da exploração de petróleo por empresas americanas e britânicas, passando pelo complô da CIA para derrubar um governo democraticamente eleito em 1953, até o apoio irrestrito dos EUA ao xá e sua polícia repressiva (treinada pelos israelenses). Muitos deputados e senadores dos EUA, ignorantes dos livros de História, só vieram a saber de tudo isso pelo filme. Essa nova compreensão da geopolítica na região tornou-os favoráveis ao acordo nuclear que o governo Obama firmaria com o Irã em 2015.
Esse acordo delicado e custoso foi jogado no lixo pelo senhor da guerra sem a menor ideia do que está fazendo e presidente dos EUA Donald J. Trump em 2018.
Lista dos suspeitos de batizar o prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood de Oscar:
Bette Davis, porque lembrava o marido de costas
Margaret Herrick, bibliotecária da Academia, porque lembrava o tio dela de frente
Sidney Skolsky, jornalista, porque sim
A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood passou por duas grandes transformações em sua composição desde a sua fundação em 1927. No fim da década de 1960, o veterano Gregory Peck, então presidente da instituição, aliou-se à atriz Candice Bergen numa missão de rejuvenescimento, convidando cineastas e atores da nova geração a se tornarem membros. Em 2014, outra presidente, Cheryl Boone Isaacs, fez movimento semelhante, mudando as regras de recrutamento e ampliando a diversificação dos membros. A partir daí, a Academia tem aumentado também o número de membros internacionais.
Mesmo com sua recauchutagem cosmopolita, a maioria dos 10136 membros-votantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood ainda é branca, norte-americana, e do gênero masculino, contra 35% de eleitoras. Vinte e um por cento são membros internacionais, incluindo dezenas de brasileiros.
A maior categoria, a dos atores (1311 membros), é também a mais diversificada. Em consequência, atores em obras de língua não-inglesa são indicados ao Oscar de vez em quando. Marcello Mastroianni é até hoje o recordista em indicações estrangeiras (Divórcio à Italiana, Um Dia Especial, e Olhos Negros). Raramente ganham, porém.
Os brasileiros até hoje não engoliram a derrota de Fernanda Montenegro (Central do Brasil) para a socialite, atriz e empresária de produtos não liberados pela Anvisa Gwyneth Paltrow (Shakespeare Apaixonado) em 1999. Consolar-se-ão com o fato de que quase cinco décadas separam a oscarizada Sophia Loren (Duas Mulheres, 1962) da igualmente laureada Marion Cotillard (Piaf: Um Hino ao Amor, 2008). Já o único ator a ganhar por um papel principal em língua não-inglesa foi o italiano Roberto Benigni (A Vida É Bela) em... 1999!

O francês Jean Dujardin venceria em 2012 pelo franco-belga O Artista, é verdade. No entanto, o filme era mudo e se passava em Hollywood, com diversos atores norte-americanos.
Apesar do apelo global, o Oscar continua sendo um prêmio voltado predominantemente para a indústria cinematográfica norte-americana — da mesma forma que o francês César, o italiano David di Donatello, o espanhol Goya, o indiano National Film Awards, o chinês Golden Rooster, e o brasileiro Kikito promovem as indústrias locais. Mesmo os multinacionais festivais de Berlim e Veneza dão um jeito de levantar a bola da prata doméstica. O peso do Oscar no imaginário coletivo tem a ver com a mística da premiação e o soft power norte-americano, que gravaram o cinema de espetáculo hollywoodiano na cultura popular mundial.
Silêncio! No hay palmas! Em premiações ou eventos em que se festejam os recém-falecidos — as chamadas apresentações in memoriam —, manda a boa etiqueta que os membros da plateia se refreiem de aplaudir um ou outro homenageado. Mesmo que você conheça o finado, esse aplauso extemporâneo acaba desrespeitando os não-aplaudidos, gente que provavelmente você desconhece mas que nem por isso deixa de ter seu valor. No mais, o barulho fora de hora pode encobrir a aparição do celebrado seguinte, dupla grosseria. (E hoje em dia sempre haverá alguém na plateia com um celular na mão e a ideia na cabeça de filmar e expor os rudes no tribunal das redes sociais.) Você provavelmente não gostará que lhe façam isso na sua vez de bater as botas! Assim que espere até o fade out, aquela hora em que a tela fica escura, ou até a música parar e as luzes se acenderem para chocar as mãos em entusiasmada ovação.
No trop français Festival de Cannes, a tradição mais famosa é o bater de palmas a perder de vista. Virou praxe se ovacionar loooooooooooooooooongamente cada filme em competição ao fim de sua exibição. Leitores de sinais de fumaça e comentaristas em geral tendem a interpretar a duração desses aplausos como bom augúrio para o filme em questão. Por mais que os fatos o desmintam, este é um mito que, assim como o óbito por ingestão de manga com leite, recusa-se a morrer.
Entre as muitas tradições que se espera do Oscar, a mais recorrente é a duração de Carnaval apesar de todos os esforços, entra ano sai ano, para tornar a cerimônia menor. Pois em 1959, deu-se o contrário. Tudo havia acabado impensáveis 20 minutos antes do previsto. Como a coisa toda já era transmitida ao vivo pela TV, houve que se improvisar. Jerry Lewis subiu ao palco, contou piadas, até conduziu a orquestra para os ganhadores dançarem pelo que pareceu uma eternidade.
O argumento financeiro para os Oscars costumava ser o aumento da bilheteria dos filmes indicados. Essa tendência vem declinando desde o início da década de 2020, mas o prêmio continua relevante para aumentar a audiência de um filme: no lugar dos cinemas, as visualizações nas plataformas de streaming.
Foi a partir da segunda cerimônia do Oscar, em 1930, que a Academia começou a fazer suspense e guardar segredo dos ganhadores. Somente os órgãos de imprensa recebiam a lista de premiados às 11 da noite, com a condição de só a divulgarem na edição da manhã seguinte. Levou dez anos, mas esse acerto enfim deu ruim. Em 1940, o Los Angeles Times resolveu dar o furo na edição vespertina do mesmo dia. Clark Gable e Bette Davis, indicados da noite, souberam que perderiam antes de entrar no Cocoanut Grove, local da cerimônia. Depois desse vexame, encarregou-se a empresa de auditoria Pricewaterhouse Cooper de proteger o sigilo dos envelopes – papel que cumpre até hoje.
Maus perdedores, há. Maus perdedores com verve, estes são pérolas seletas. Ninguém até hoje se igualou a Glauber Rocha quando o seu mais experimental A Idade da Terra perdeu o Leão de Ouro no Festival de Veneza de 1980 para o mais convencional Atlantic City, de Louis Malle, e o mais policial Glória, de John Cassavetes. Mal saiu o resultado, deu uma entrevista para a TV italiana RAI desancando júri, competidores, o vencedor, e tudo o mais que viu pela frente numa mistura indignada de italiano, francês, português e um tanto de inglês digna do poliglota personagem Salvatore do romance O Nome da Rosa, de Umberto Eco.
A coisa não parou aí, claro. Glauber era tão bom barraqueiro quanto cineasta. Malle veio tentar consolá-lo, soprando alto as chamas da ira do brasileiro. “Você venceu porque seu filme teve a produção da Gaumont, uma multinacional imperialista”, respondeu Glauber malcriado (em francês). Malle, que também era de se esquentar, preparou a armadilha.
Malle: E o seu filme foi produzido por quem?
Glauber: Pela Embrafilme, uma empresa estatal de meu país.
Malle: E o Brasil não tem um regime fascista? Ou você é daqueles que acha que Figueiredo é democrata?
Glauber (berrando aos quatro ventos): Fascista é você, Malle, e não o presidente Figueiredo, que está redemocratizando o Brasil! Você é um diretorzinho de segunda categoria. Você sabe que não pode concorrer comigo. Você é medíocre. E fascista!
Malle já se afastava quando Glauber voltou a rodar a baiana: deu-lhe novo “fascista” e o francês já se aproximava de punho em riste. Glauber se preparou para a refrega com um “Quebro sua cara, fascista”. A turma do deixa-disso entrou em ação e a coisa terminou antes de se acabarem.
Estou feliz em apresentar este prêmio. Eu conheço o vencedor faz muito tempo.
Irving Berlin, ao apresentar o prêmio de Melhor Canção de 1943 (White Christmas) a Irving Berlin.
Da primeira vez, eu não senti, mas agora não posso negar que vocês gostam de mim. Nesse momento, vocês gostam de mim!
Sally Field, que precisou ganhar um segundo Oscar de Melhor Atriz (Um Lugar no Coração), em 1985, para ter certeza.
Vocês podem checar de novo o envelope?
Martin Scorsese, finalmente recebendo o prêmio de direção por Os Infiltrados (2007), após uma carreira de 20 filmes que incluem clássicos como Taxi Driver e Touro Indomável.
Obrigado. Vou beber até de manhã.
Bong Joon-ho, encerrando seu discurso após receber o prêmio de Melhor Diretor por Parasita em 2020.


parabéns pela edição 100!